quinta-feira, março 29, 2007

Identidade



É engraçado dizer, mas até hoje, aos 21 anos eu não sei a que lugar pertenço. E se é que pertenço. Deve ser conseqüência; eu nasci no Rio e pequenininha saí de lá, fui pra Curitiba. Na capital passei uma infância difícil pra no início da adolescência ir pro interior, Foz do Iguaçu, a Terra das Cataratas.

Sabe o que isso quer dizer? Perda das raízes. Afinal de contas, da minha terra eu só sei o que meus pais contam e o que o tempo me deixa ver nas férias: uma prainha aqui, uns carnavais ali... Mas eu não posso reclamar, se não fossem os meus pais (e as férias) talvez ainda andaria em círculos à busca de um ema pra monografia.

Se bem que o tema eu não escolhi, ele me escolheu (e lá vêm os pais denovo): durante uma faxina em casa achei uma fita k7 de 1900 e antigamente, que a gente escutava no carro durante os passeios em família. A voz grave maravilhosa nunca deixou dúvida: João Nogueira.

Ao mostrar para a orientadora achei que seria fácil até mesmo quando ela me disse o que deveria fazer. Mas tudo bem, era bem o que eu queria. Eu comecei a pesquisa na doce ilusão que eu sabia tudo sobre o João, sensação estranha pra alguém que sabia que havia ouvido um álbum e uma coletânea de um artista com aproximadamente 30 anos de carreira. E ele parecia alguém tão comum, apenas um simples poeta.

Pois foi só no nosso berço é que eu fui descobrir que não era bem assim. À primeira parada já fui muito bem recepcionada, vendo como se faziam antigamente os programas de rádio, com o ritmo divertido e envolvente (ê clichê...) do Cordão do Bola Preta. Na posição de acadêmica/ pesquisadora foi difícil ficar parada, mas consegui (não sei ainda se me envergonho ou me orgulho por isso). Assim que o programa acabou, a timidez assolou-me assim que aproximei-me de Rubem Confete e ouvi-lo dizer “Eu era muito amigo dele”. A partir dali notei que nada seria tão simples. Ainda tive o depoimento do bamba Luiz Carlos da Vila, que foi muito paciente; burra FUI EU de não tê-lo reconhecido. Isso porque eu adoro a voz dele! Aff!

O interessante foi que após estas experiências, passei a conhecer “o Rio de João”: a quadra da Escola de Samba Portela, em Madureira (onde hoje um garoto não deixa “o espelho se quebrar”: Diogo Nogueira), a Cinelândia (pequeno – mas básico – comentário: após sair decepcionada da Biblioteca Nacional [que fique bem claro: a decepção em si NÃO FOI com a Biblioteca Nacional] e virada em pernas atravessar a Av. Rio Branco, tamanha foi minha surpresa ao dar de cara com o Bar Amarelinho, que aparece na música “Bares da Cidade”, uma das últimas que eu havia escutado e adorado. Mais além, outra surpresa: no Teatro Rival [que fica no meio dos becos confusos da Cinelândia], onde João cansou de se apresentar, havia um grande – e belo – cartaz de Diogo, anunciando apresentação em um dia próximo àquele!), o Sambódromo (Sim, vazio e na parte da tarde... =( )e vários outros lugares que me deixaram maravilhada. E que me fizeram senti-lo ainda vivo, e próximo.

É uma pena, me conscientizei disso muito tarde, eu tive um herói que me mostrou as coisas da vida; a quem não tinha dado valor. Hoje meu Marechal está morto, mesmo assim vou homenageá-lo pois meu coração diz o contrário dos fatos e recortes de jornais.

Querido Marechal, espero representá-lo como você merece, e seguir seus ideais, algo que vinha fazendo sem saber. E é claro que aí você tem vaidade, e orgulho do Diogo ser igual a ti! Todos temos!